O
Nascimento de um Giovanni
Aos nove dias do mês de novembro do
ano de 1310, numa pequena cidade ao sul de Roma nascia Eva Callisto. Sua pele
extremamente clara e seus olhos castanhos claros lhe foram dados por sua mãe,
Eva Ludmilla Callisto – filha de um dos maiores senhores rurais da Itália
pré-renascentista –, a expressão firme e o nariz empinado ela herdou do pai,
Alexander Callisto Delavinne – general do mais alto escalão das tropas
italianas –, que perdera o nascimento da filha devido a uma reunião urgente com
o Conselho de Defesa. Eva nascia numa família riquíssima e poderosa, mas
extremamente infeliz. Alexander adorava passar o tempo com a esposa e com sua
pequena cria, mas seu trabalho lhe tomava muito mais do que aquilo que ele
gostaria de dar. Ludmilla procurava se aproximar da filha, mas esta só tinha
olhos para o pai, e enquanto ele estivesse ausente, ela estaria de mal humor.
Assim, cinco anos se passaram e Eva
florescia como uma linda menina. Astuta, independente e reservada, ela passava
a maior parte de seu tempo andando pelas propriedades de sua família – que eram
vastas – em companhia do mordomo de sua mãe. Muitas vezes eles passavam dias
fora de casa e após o nascimento de Lindina Callisto (1314) Ludmilla
esquecera-se quase que completamente de Eva. Lindina era o exato oposto de Eva,
amava sua mãe acima de tudo e preferia chás ao entardecer e brincar de casinha
a passear pelo campo.
Em 1318 Alexander aposentou-se aos 65
anos e se tornou a companhia que Eva tanto queria em sua excursões. Enquanto
isso, Lindina se tornava a filha que Ludmilla tanto pediu a Deus, cheia de
ternura, compaixão e delicadeza. Um ano depois, durante uma exploração numa
pequena floresta numa das terras ao Norte, Eva encontrou uma caverna. A entrada
era tão pequena que somente ela era capaz de entrar e seu pai sempre ficava do
lado de fora esperando que ela voltasse. Apesar de ter tentado impedi-la
diversas vezes, Alexander nunca era capaz de frear a ânsia que ela tinha em
entrar na caverna. Lá dentro ela passava cerca de três horas em total silêncio
e depois de duas semanas acampados no mesmo lugar, Alexander decidira voltar
para casa, pois estava muito cansado e queria que Eva se afastasse daquela
caverna por um tempo. Na manhã do dia seguinte, avisou a filha sobre seus
planos e, para seu espanto, ela saltou sobre ele como uma fera e o derrubou ao
chão num simples golpe. Rosnando e apertando o pescoço do pai, Eva voltou a si
depois de alguns segundos e, em prantos de desespero, correu pra dentro da
caverna. Alexander batera a cabeça numa pedra e desmaiara, mas a lembrança de
sua filha tentando tirar-lhe a vida ainda estava viva em sua memória quando
acordou e ele fugiu como um louco até encontrar a estrada, deixando para trás
sua filha para sempre, pelo menos ele pensava que sim.
Seis meses depois, nesse mesmo ano,
Eva completava nove anos de idade. Sua pequena festinha de aniversário
resumia-se a ela mesma, sua mãe e alguns convidados chamados especialmente para
a ocasião. Sobre a mesa da festa encontrava-se um “bolo” que seria um escândalo
em qualquer outra festa de aniversário, mas naquela ele era exatamente o que
todos os presentes queriam comer, exceto Eva. Enquanto sua mãe enfiava uma fina
vela negra no fígado humano sobre a tigela e a acendia, a menina a admirava com
ternura, pois sabia que receberia na noite daquele dia o maior presente de sua
vida. Depois de ter soprado a vela, abraçado sua mãe e cumprimentado todos os
33 zumbis que sua mãe convocara, Eva os deixou jantando e finalmente estava só.
Depois de seis meses sem sair ao ar livre, vivendo nas profundezas da terra
como carniçal, ela aproveitava aqueles que seriam os últimos raios de sol que
receberia com tanto prazer. Sentada ali sozinha, ela lembrou-se de seu pai a
quem tanto amara, da mulher que lhe trouxera ao mundo e de sua irmã.
Perdida em seus pensamentos, a menina
não percebeu a chegada da noite, nem notou quando sua adorada mãe, Sinara
Hernandi di Paula, se aproximou e assustou-se quando sentiu uma dor que seria
insuportável para um humano despreparado, mas que para ela, era o maior ato de
amor que sua mãe poderia fazer. O pequeno encostar de lábios em sua bochecha
esquerda lhe deixou paralisada por alguns segundos, em estado de choque. Sinara
vinha preparando sua filha pra o grande dia, aquele no qual ela dividiria, pela
primeira vez, o dom maravilhoso da imortalidade. Para a maioria dos outros
não-vivos, ter uma cria era simples, muitas vezes até sem o consentimento
prévio do mortal, mas um necromante deveria primeiro fazer sua futura cria
passar por um período de adaptação, para ser capaz de resistir a dor e choque
causado por seu beijo que mataria facilmente um mortal despreparado. Apesar de
confiar plenamente na força e vitalidade da filha, ela estava por demais
receosa e esperaria até que a menina ficasse mais velha, não fosse a indignação
da mesma sempre que tentava convencê-la. Por isso, juntas elas decidiram que
Eva se tornaria um membro em seu aniversário de 9 anos.
De mãos dadas, as duas desceram as
escadas que levavam ao salão principal da caverna. A menina deitou-se de costas
sobre a mesa de mármore e sob o olhar morto-vivo de sua platéia sua mãe lhe
beijou o tornozelo esquerdo, afim de aumentar o máximo possível a distância em
relação ao cérebro. Antes mesmo que metade da vitae de Eva passassem pelos lábios de Sinara, a menina estava
morta. Em desespero, a mulher chamou um de seus mais estimados convidados, um
espírito de mais de 2000 anos de idade chamado Ibsen, que habitava os restos
mortais de um ex soldado, e lhe pediu que terminasse de retirar o sangue de sua
filha para que a transformação fosse possível. Ibsen atendeu prontamente ao
chamado e enquanto fazia o que podia com seus lábios em decomposição, Sinara
cortava um dos pulsos e colocava sobre a boca aberta de Eva. Uma hora depois,
Ibsen terminava sua parte, exausto. Sinara caíra de joelhos depois que mais da
metade de toda sua preciosa vitae
fora jorrada dentro da boca de Eva, sem que nenhum efeito fosse notado. Com o
corpo da filha nos braços, ela repetia a canção de ninar que cantava todos os
dias para fazê-la dormir e uma torrente de lágrimas lhe escorriam dos olhos. A
mulher estava visivelmente abatida e seus convidados, incentivados por Ibsen,
achegaram-se para dar-lhe algum apoio. Cerca de meia hora depois, a mulher viu
aquilo que tanto temia: Eva estava de pé no teto da caverna olhando para aquela
cena grotesca com aquela expressão juvenil e doce que sempre fazia. Sinara
agora tinha certeza, sua filha morrera e ela teria que trazê-la de volta, não
importa o quanto isso lhe custasse.
A possessão não seria lá tão difícil,
afinal como mestra nas artes necromânticas, ela dominava tanto a Linha dos
Ossos quanto a Linha do Sepulcro. A parte realmente desafiadora seria fazer com
que o espírito de Eva ficasse preso ao corpo permanentemente, pois, caso
contrário, ele apodreceria e se tornaria inabitável em algumas semanas. Sob a
vontade de Sinara, Eva retornou à seu corpo e ficou saltitante ao se ver
novamente viva. A mulher abraçou sua filha bem apertado, e com lágrimas nos
olhos lhe disse: - Minha querida Eva,
viva sua não-vida em paz.
Deixo tudo o que tenho para você. Deste momento em diante
você será chamada Giovanni! – Neste momento, Sinara esgotou sua força de
vontade tornando a possessão permanente e sacrificou sua alma para trazer o corpo
de Eva de volta a vida.
Uma semana mais tarde, Eva acordou com
sede. Ao abrir os olhos viu-se rodeada pelos corpos que sua mãe animara no dia
de seu aniversário, suas roupas estavam manchadas de sangue e ela sabia que as
cinzas que estavam sobre seu corpo eram os restos de sua mãe. Enquanto se
lembrava em prantos de todo o drama pelo qual passara e recolhia as cinzas num
pote de barro, assustou-se quando foi capaz de ver, primeiramente uma sombra se
movimentando, depois a imagem tornou-se nítida, mas ainda era possível ver
através dela, era um homem alto, que deveria ter sido belo em vida, seus olhos
eram profundos e transmitiam a sabedoria de milhares de anos, era Ibsen. Nesse
instante, ela soube que estava morta, ou melhor, não-viva.
Eva passou 23 anos não-vivendo na
mesma caverna que sua mãe. Ibsen tornara-se seu companheiro inseparável, lhe
trazia alimento uma vez por semana e depois passava a habitar o corpo inútil.
Muitos outros espíritos tinham contato com Eva, mas a maioria ia e vinha,
buscando algum conselho e partindo em seguida. Mesmo tendo acesso aos pergaminhos de
sua mãe, ela não se interessava muito em estudar e passava cada vez mais tempo
fora da caverna, vagueando pelas matas com seu amigo morto-vivo. Certo dia, ao
vaguear pelos limites ao sul da floresta ao anoitecer, os dois viram uma fumaça
negra subindo no horizonte. Eva desenvolvera habilidades oraculares e dois dias
antes tivera uma visão na qual um homem bem idoso, uma mulher muito bonita e
uma senhora idosa estavam dentro de uma casa em chamas, pedindo socorro. No
instante em que viu a fumaça, ela soube que era a tal casa, e num lapso de
lembranças soube que as pessoas da visão eram seu pai, sua irmã e sua mãe
biológica.
Eva disparou em direção a fumaça,
deixando Ibsen, que era menos ágil, para trás. Ao avistar a casa em chamas viu
dois homens saindo pelo portão da frente com tochas na mão. Uma ira
descontrolada lhe dominou e ela voou sobre eles como uma fera salta sobre sua
presa. Pela primeira vez, a menina experimentava vitae fresca, mas apesar do prazer delirante que sentiu com o sabor
quente, doce e incomparável que lhe devolvia a vida que o tempo insistia em
tomar, ela prometeu nunca mais repetir aquele ato ao ver as expressões de dor e
desespero daqueles homens ao receberem seu beijo.
Depois de alguns pontapés vigorosos, a
porta principal da casa veio abaixo, mas Eva permaneceu parada olhando para o
fogo. Lembrou-se de sua mãe lhe falando sobre esse ser impetuoso e perverso que
devora a carne dos não-vivos vorazmente, e olhando para as chamas soube que se
ela adentrasse na casa, não saberia o que poderia acontecer. Desde que acordara
como não-viva, ela ouvia os sussurros dos quais sua mãe tanto falava, um monstro
que vive dentro de todo Membro, esperando um momento de fraqueza ou descontrole
para tomar conta. Ela podia senti-lo se aproximando sempre que Ibsen atrasava
com seu alimento e agora diante das chamas, ela podia sentir suas garras
prontas para perfurar-lhe a garganta. Uma onda de pânico ameaçou dominá-la e
ela sabia que se não resistisse, seu monstro interior teria o controle e isso
ela deveria evitar a todo custo.
Enquanto travava uma ferrenha batalha
dentro de sua mente, Eva ouve um gemido em meio aos estalos de madeira e
crepitar do fogo. Ao olhar em direção ao som, ela vê Alexander deitado sobre
Ludmilla e Lindina, tentando protegê-las da melhor maneira possível. Eva engole
em seco, cerra os punhos e entra na casa, saltou alguns móveis em seu caminho, graciosamente
pega o corpo de seu pai e o levou a uma distância segura da casa, volta e pega
sua irmã, mas, pouco antes de sair, o teto rui e somente devido a sua destreza
inumana ela é capaz de saltar para fora com Lindina nos braços. Cerca de 40
minutos depois, Alexander e Lindina estavam conscientes e Eva os observava a uma
certa distância. Ibsen lhe orientara a ser cuidadosa, pois seus parentes
mortais não aceitariam bem sua aparência. Foi seu pai quem cortou o silêncio: -
Como pode ser, Eva? Você ainda é uma criança, olhe só para sua irmã, já é uma
mulher feita... -. Eva sentiu o desprezo nas palavras do pai, mas ao mesmo
tempo percebeu que ele estava com medo, e seu coração batia acelerado em seu
peito. Lindina, que há alguns anos se preparava para tornar-se freira, levantou
abruptamente, apontou o dedo para Eva e disse: - Ela é uma bruxa, papai... não
vê? Como ela poderia não ter envelhecido todo esse tempo sem uso de magia
negra? -. Apesar da convicção que sua irmã tentou transmitir, Eva pôde ver ali
a descrição exata daqueles que sua mãe chamava de “Tolos da Igreja”, pessoas
que pensam saber algo sobre o sobrenatural e procuravam combatê-lo, alcançando,
geralmente, apenas uma morte precoce e trágica. Enquanto a menina reanalisava
as expressões de seu pai, Lindina retirou um frasco de seu vestido, o destampou
e arremessou em direção a ela, gritando: - Queime, bruxa maldita! -. Aos olhos
de Eva, o frasco vinha como em câmera lenta, ela poderia ter esquivado ainda
que fossem dez frascos ao mesmo tempo, mas preferiu quebrar a “fé” de sua irmã
ao meio. O frasco acertou sua testa e de seu rosto escorreram as gotas até seu
vestido, Lindina deu um grito de pavor e gemeu entre dentes: - Como é possível,
nem mesmo água benta é capaz de ferir essa coisa? - Apesar de sentir-se
convicta e pronta para partir, Eva abalou-se profundamente quando sua irmã se
referiu a ela como “coisa”. Um minuto depois, Alexander levantou-se, cuspiu no
chão e rosnou: - Vamos, minha filha... isso não tem sentimentos. Ela seria
capaz de arrancar nossas peles apenas para fazer de souvenir. – Aquela fora a gota
que faltava para transbordar a paciência de Eva, ela virou-se para Ibsen e
ordenou: - Arranque a pele dos dois e traga para mim, dê seus corpos aos filhos
da noite. –
Ao ouvirem a ordem, Alexander e
Lindina dispararam em direção a estrada, correndo como loucos. Ibsen não
gostava daquele tipo de serviço, correr atrás dos outros como um cão de caça,
mas por pura coincidência esse corpo no qual estava fazendo residência era de
um batedor, por isso tinha um ótimo condicionamento físico e já fazia bastante tempo
desde que Eva lhe pedira algo parecido. Apesar de estar num corpo que lhe dava
certas vantagens, Ibsen ainda era um morto-vivo e por isso era bem menos rápido
que os dois mortais que perseguia, mas seu maior trunfo era que eles se
cansariam, enquanto que ele correria até que os ossos dos pés de sua casa
fossem destruídos e depois disso ele se arrastaria até que não restasse mais
nenhum membro para se locomover. Dois dias depois, seguindo seus rastros e
cheiro, Ibsen encontrou os dois caídos dormindo, exaustos. Fez questão de
acordá-los para que eles vissem um ao outro ser escalpelado e os fez engolir
algumas ervas que impediria que eles desmaiassem durante o processo. Três dias
depois voltou a Eva, resmungando: - Aqui está o que pediu. O trabalho foi feito.
– Sentindo remorso pelo que fizera, Eva resolveu que deveria passar pelo mesmo
sofrimento que causara a sua família, e escalpelou a si mesma, arrancando a
pele de seu rosto do nariz até a testa. Talvez porque essa fosse sua vontade, a
ferida nunca cicatrizou, o que fez com que o semblante da menina se tornasse
asqueroso, com os olhos saltando das órbitas, por isso, daí em diante Eva passou a
usar uma máscara carnavalesca, que lhe cobre o ferimento, mas deixa sua boca
delicada a mostra.
Nos 30 anos que se seguiram, ela
vendeu todas as propriedades de sua família, comprou uma grande casa em Roma e
ardilosa e astuta como era, tornou-se Chefe do submundo de um dos bairros da
Grande Cidade.
Por:Marcos
contato mrabio@hotmail.com
Por:Marcos
contato mrabio@hotmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário